terça-feira, 30 de dezembro de 2008
lugar
Uma princesa dormia
A sombra do rei
Que consigo escondia
Segredo fatal
A guerra travara
E mesmo ao seu lado
Esquadra encantada
O rei percebeu
Que não era imortal.
"Acordem minha filha!
E levem-na à ilha
Cercada por mar
Bem longe da terra
Que mesmo em espera
Pródigo guerreiro
A irá encontrar."
Trancafiada
A princesa prostrada
Se pôs a chorar
Mas olhava pras vagas
E essas traziam
Palavras perdidas
Do rei valoroso
Que fora seu pai
"Se acalme minha filha
Que assim é a vida
E tenha coragem
Para esperar
Pois cada um tem sua hora
E nessa espera verás
Que a tua um dia
Irá de chegar!"
Um dia esperando
Mas sem esperar
Viu se aproximando
Da beira do mar
Nau pequenina
Que a um conduzia
Em tão vasto mar
O navegante em delírios
Jogou-se nas areias
E sua historia então
Dispôs-se a narrar:
"Fugi de sereias
Tubarões e baleias
Enfrentei tormentas,
Tromba, procela,
Gélidas noites
Siladas do mar.
Passei oh princesa
Por tais desventuras
Por isso lhe imploro
O perdão da demora
E se me conceder
Honra tamanha
Desejaria tua face
Poder comtemplar!"
Atordoada
A princesa olhava
O guerreiro do mar
Perguntara seu nome
E esse dissera:
" Sou Gilliat."
"Gilliat... Gilliat... Gilliat!
Provavelmente enlouqueci
Pois o que de ti eu li
É que te entregastes
Ao oculto mar."
"Não, não é mentira
Morri, sim morri.
E tu princesa
Dormes e sonhas
E nesse teu sonho
Sou eu o príncipe
Que vim de buscar."
" E para onde
Surreal Gilliat
Nessa tua nau
Pretendes me levar?"
"Para teu reino querido
Que agora se encontra perdido
Nas profundezas do mar."
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
domingo, 23 de novembro de 2008
O Encontro
Cabe, antes de mais nada, uma nota prévia: seria, eu diria, aquilo que costumam chamar de prólogo.
Isso que se chama " O Encontro" não tem muita pretensão de ser. Aviso de antemão ao leitor : " Se tens pressa, serás levado ao desespero." Pois, o que aqui postarei será sempre pouco e muito pouco, e as correções serão sempre muitas. Não reclamem dos erros! Isto está e estará sempre inacabado e sujeito à correções, como a vida de qualquer um.
I capitulo. Alicerces de uma cidade bem fundada: Caos.
Tarde fresca na pequena cidade; na praça principal a velha igreja, o velho pipoqueiro; que por sinal sempre foi velho; a velha casinha de sorvetes italianos e tudo aquilo de "caindo aos pedaços" que costumam ter esses pequenos lugares. Porém, olhares atentos podem notar que a contemporaneidade não perdoa nem mesmo estes azilos geográficos. Surge um dia uma pequena praga em um corpo, e então, sem motivo algum ela se alastra. O que era corpo, já não é mais. É carcaça, espólio. O mesmo acontecerá com a cidadezinha, já se viam os indícios da doença: uma loja famosa a um canto, uma franquia alimenticia em outro, o esboço de um prédio aqui, o rabisco de uma indústria ali. Eis o tempo do qual falamos, não espera ao menos "cair as velhas crostas da vida", ignora o que existe, toma-o por nada e de repente lá está ele; o explendor luminoso de um novo mundo soterrando o passado.
Não perpassam as eras estas cidades. Por que? Não nasceram grandes. Cidades pequenas que crescem ao longo do tempo desmoronam.
Acontece leitores, que o famoso "E fez-se luz" se deu de forma diferente neste lugar, contrataram um renomado arquiteto, um economista, um agricultor, um planejador, etc; juntaram todos num canto e disseram: "Deem-nos um mundo perfeito!" E não é que deram! Maquetes onde não cabe o homem.
(cap. incompleto)
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Incertezas do cotidiano
Naquele dia eu estava com o ânimo murcho, andava chutando pedrinhas, recusava bom dias, doces e balas. Parece que a crise do quinto período finalmente havia batido. Entrei na sala pensando em sair, sentei com vontade de levantar, fechei os olhos e só Deus sabe se dormi. Acontece que despertei como se uma musa me cantasse ao pé do ouvido, a professora falava de Platão. Me endireitei na cadeira e fiquei ouvindo, fui me animando, a coisa foi me tocando de tal forma que eu não queria estar em outro lugar nem num outro tempo, eu pensava "finalmente despertei do sono letárgico" Era aquilo que eu deveria fazer para o resto da minha vida!
Finda a aula e eu tenho apenas uma vontade: Voltar o mais depressa possível à casa e me debruçar por horas diante dos livros! Abro a porta da sala decidida.
Sopra um vento no meu rosto, o dia estava lindo e fresco os pássaros cantavam (e não eram os habituais pombos) tudo conspirava para que eu acabasse o dia confinada com os livros em meu quarto?
Fui para o bar e bebi até me entortar.
Em breve "O Encontro" retorno aos romances ou "quase" romances de folhetim.
sábado, 1 de novembro de 2008
Prévia
_Aquilo que nos guia é sempre o acaso.
_ Nada mais?
_ E por quê algo mais deveria nos encaminhar pela vida? _ Houve silêncio e o jovem disse baixo:
_Tenho medo.
_ O único medo que deves ter, é de não fazer aquilo que lhe é necessário. A crueldade do acaso é a de deixar trasparente o oportuno. Mas não se engane meu jovem, pois é aí que há luta, e vida se faz sacrifício. _ Vendo um brilho nos olhos do rapaz o velho continuou.
_ A única luta que não se deve travar é com o coração humano. Eis a maior das fatalidades. Mora dentro de cada um algo incontrolável, indomável, supremo. Ás vezes é necessário se calar diante disso que chamam amor.
Em breve "O encontro" retorno aos romances de folhetim (quase folhetim)
domingo, 26 de outubro de 2008
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
A dança!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008
O Torso Arcaico de Apolo
Deleitem-se!
Wir kannten nicht sein unerhötes Haupt,
darin die Augenäupgel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen nur zurückgeschraubt
sich hält und glänzt. Sonst könte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden Könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.
Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmert nicht so wie Raubtierfelle
und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.
Rainer Maria Rilke / Tradução de Manuel Bandeira
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Realidade
Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade ...
Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...
Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)
Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.
O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!
Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...
Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.
Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...
Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.
Talvez isso realmente se desse...
Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...
Sim, talvez...
Álvaro de Campos
domingo, 28 de setembro de 2008
A Procura da batida perfeita
Então, para você que não tem o estômago lá grande coisa e não consegue degustar com gosto a bebida, com medo do que pode acontecer em seguida, eis a solução:
Ingredientes:
2 folhas de boldo
1/2 xícara de coca-cola (recém aberta ta!?)
1 colher de sobremesa de sal de frutas
1 sonrisal
2 tubinhos de epocler (porque o fígado também merece cuidados)
3 colheres de eparema
1 copo d´água
uma gotinha de limão (a gosto)
Modo de preparo:
junte tudo e beba ( sem medo! Isso é essencial, pois prova que ainda estás bêbado)
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Aos papagaios
Vale dizer que a minha idade era aquela na qual as pessoas tendem a idiotice, umas por auto-defesa, outras por afinidade, mas creio que no meu caso era mesmo por ignorância.
Pois bem, era uma sexta ensolarada e quente, o dia perfeito para ler e anotar qualquer coisa em meu quarto; é bem verdade que nunca tive espírito, e agora pensando, percebo que as pessoas que escreveram a "qualquer coisa" que eu lia o tinham menos ainda; eu precisava saber qualquer coisa para um dia, enfim ,me tornar coisa qualquer. Esse vício impensado que temos de nos eruditizarmos... Pois o que é um erudito!? Um careca corcunda de óculos? Não!, esse é meu vizinho Ramirez e por sinal muito boa gente. O erudito é alguém que está sempre com o dedo apontado na sua cara dizendo : "viu?!" Ocorre com muitas pessoas quando pisam em uma barata e ao perceberem que essa ainda vive, dão um golpe final e exclamam senhoras de si : "maldita!" Já eu digo : "erudito!"
Mas não era assim, já louvei dessa gente, já exercitei a virtude dos eruditos (ler, decorar, memorizar, armazenar, decodificar e repetir) mas como nunca fui de levar as coisas muito a sério e nunca houve em mim, paciência para tal empreendimento resolvi assumir quem sou! E no dia dessa descoberta me senti livre! Eram versos de Fernando Pessoa que ecoavam em minha cabeça., e, se antes os achara tolo, agora eles faziam todo sentido. Ei-los:
"Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
Livros são papéis pintados com tinta
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma".
sábado, 20 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Alguns poemas chineses

domingo, 31 de agosto de 2008
Equilibrando-se
"O que é que toca os telhados a essa hora?" Se pergunta o jovem aflito num leito que não o acolhe. É intenso demais o vigor que lhe palpita no peito. Intensidade meramente fugaz.
Quem afaga os telhados são as telhas que se tocam pois o vento sopra forte e choverá a qualquer hora.
O jovem não consegue permanecer em sua cama. Como é possível dormir com um turbilhão dentro do peito? Quando o sopro que anima a alma se transforma em tufão o próprio corpo já não é mais um abrigo seguro. É preciso se precipitar ao telhado e deparar-se com o ignoto, esse desconhecido que paira no horizonte, toma as feições do vento forte que lhe bate no rosto e balança as telhas das casas e derruba as folhas das árvores. O homem mede forças com aquilo que desconhece e normalmente acaba arrasado, destruído, mas por um único motivo apenas; há nele a memória de sentir-se devastado.
Uma gota toca-lhe a nuca, outra despetala a flor, finda a ventania com um suspiro do rapaz, tal suspiro parece ecoar no vento dizendo "Nunca mais... Nunca mais..." Agora chove. Chove. Apenas e simplesmente chove.
sábado, 16 de agosto de 2008
domingo, 3 de agosto de 2008
Senta e chora!

quinta-feira, 31 de julho de 2008
Caros Leitores
Chupem essa manga!
Ia eu. O passo era o de sempre, quase parando; o dia era de inverno; mas um calor dos infernos. Entrei no ônibus (438 sentido presidente vargas) e pobre... Mal sabia que estava prestes a me tornar ninguém. Como antes de tomar o 438, havia passado no banco, a infeliz da carteira ainda estava na mão, guardei num compartimento da mochila e sentei-me. Não havia trânsito então o vento batia em meu rosto e isso me agradava, eu me sentia livre, leve, feliz..., a ponto de esquecer o que eu mesmo precisava fazer na faculdade, acho que num precisava fazer nada, mas por algum motivo eu deveria ir. Fui... E foi a última vez que fui eu. Puxei a cordinha; leitores desatentos e que nem sabem o que leêm, estou no ônibus e não num banheiro; o motorista foi parando, aos poucos..., devagar..., devagarinho..., mas um tranco..., agora vai.., num foi, parou. Quando me postei diante do primeiro degrau um velho maldito (só vim a chamá-lo de maldito instantes depois) caiu na minha frente, derrubou jornais, chaves, etc. Ajudei-o a se levantar, os outros passageiros que queriam descer empurravam, minha mochila estava nas costas, sentir o ziper abrir e fechar, alguém diz algo, me distraio e só me dou conta de que fui roubada quando já estou do lado de fora. Como sou esperta penso " foi ele!" "Ele" era o rapaz que desceu logo atrás de mim; cautelosamente resolvo o seguir e penso ainda " Bandido! Eu é quem vou lhe roubar a minha carteira!" Após o seguir por uns 600 metros, tomo coragem e digo. Não, gaguejo "Olá, eu fui roubada no ônibus! Vi que o senhor desceu atrás de mim, será que não teria visto alguma coisa!?" Sinto muito minha filha, num vi nada, mas tinham uns velhos estranhos atrapalhando na saída..." "Os velhos" pensei, e fiquei pensando.
Depois perdi alguns dias fazendo aqueles procedimentos chatos que os roubados devem fazer, boletim de ocorrência, bloquear cartões, ouvir a mãe brigar, tirar outra carteira de identidade, outro cpf, carteirinha da faculdade... Ah perdi tudo! Até bilhete de loteria! O pior é que tenho certeza que dessa vez eu levava! Fui levada.
Hoje, aqui sentada, narrando esse fato, eu me recordo, dos tempos em que tinha uma carteira de identidade, um cpf..., não só isso. Tinha papel sujo na carteira, notinha fiscal, tiquet de cinema, coisas irrelevantes mas que a gente se apega. Ah... que saudade da minha carteira desbotada...
sábado, 26 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Hölderlin... Hölderlin...
"Como errei pelas montanhas e pela costa marítima! Ah! quantas vezes, ali nas alturas de Tinos, sentei-me com o coração palpitante e avistei falcôes e grous, navios alegres e audaciosos desaparecerem, lá embaixo, no horizonte. Lá embaixo. Pensei, ali também haverias de peregrinar e senti-me como um enfermo ardendo em febre que se precipita no banho refrescante e versa sobre a fronte água espumante.
Ofegante torneia casa. Pensei, então, se pudesse acabar com esses anos de aprendizagem.
Jovem bom! Ainda é preciso atravessá-los."
domingo, 6 de julho de 2008
A arte de se chutar o balde
sábado, 7 de junho de 2008
Tempo Redescoberto

quarta-feira, 28 de maio de 2008
A Quadrilha das Lagostas

Disse a branquinha ao caracol: "Vê se apressa esse passo!
Pisam na minha cauda, há um delfim em nosso encalço."
Lagostas e tartarugas anciosas, avançam!
Esperam entre os seixos você vai entrar na dança?
Não vai, vai, não vai, você vai entrar na dança?
Vai, não vai, vai, você não vai entrar na dança?
"É tão delicioso, você nem pode imaginar,
Quando nos atiram, com as lagostas, para o mar!"
Mas, disse o caracol, "Longe demais!", sem confiança...
Ficava muito grato, mas não ia entrar na dança.
Não, não podia, não, não ia entrar na dança.
Não, não ia, não, não podia entrar na dança.
"Longe? Mas e daí?", respondeu a amiga escamada.
"Você bem sabe que existem praias do outro lado.
Se longe da Inglaterra, muito mais perto da França...
Meu caro, não tenha medo, trate de entrar na dança.
Não vai, vai, não vai, você vai entrar na dança?
Vai, não vai, vai, você não vai entrar na dança?"
De "Alice no País das Maravilhas"
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Ah... outono...
terça-feira, 6 de maio de 2008
Paisagem pelo telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho mínima,
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estáis mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
(Cabral de Melo Neto)
sábado, 3 de maio de 2008
Mas o que é que é mesmo a metafísica?!

Mas como hoje é sábado, quem é que está preocupado em pensar? Sábado já é o dia do banho, só nos faltava essa., pensar também!? Calma leitor... Quem é que falou em pensar? Estais por demais precipitado. E Lá se chega a alguma resposta pensando? Pensar confunde, é preciso ver.
Vejamos este soneto intitulado "Diálogo entre Babieca y Rocinante"
B. ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues ¿ qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.
B. Andá señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
¿ Quereislo ver? Miraldo enamorado.
B. ¿ Es necedad amar?
R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis.
R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero.
R. No es bastante.
¿ Como me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?
(Miguel de Cervantes)
Saudoso Machado...

sexta-feira, 2 de maio de 2008
Menino de engenho
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice
que a corta em foice, um dar-se mútuo.
Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.
A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado(então)
é vírus ou vacina.
(Cabral de Melo Neto)
Taí, gosto muito dessa poesia.









