sábado, 26 de dezembro de 2009

passeios

Verlaine

Paysages belges
Walcourt.

Briques et tuiles,
O les charmants
Petits asiles
Pour les amants!

Houblons et vignes,
Feuilles et fleurs,
Tentes insignes
Des francs buveurs!

Guinguettes claires,
Bières, clameurs,
Servantes chères
A tous fumeurs!

Gares prochaines,
Gais chemins grands...
Quelles aubaines,
Bons juifs errants!

Juillet 1872

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009




Ah, lua de outono
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Grandes

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.

Fim.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Humano

Errante!
Sou! Sou! Sou!
Aos avessos.
Aos tropeços.
Porque quero
Porque posso.
Pois sou homem.
Sou o todo mundo.
águas de um rio que passa.
Sou deus,
sou deus ao avesso,
pegadas as quais areias escondem.
Eu passei.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

(De "O Encontro")

Já não havia mais folhas naquela árvore que beirava a linha do trem. Era outono. O sol já não fazia presença, anoitecia sem tarde. “É outono” o jovem pensava. Sentado em frente ao piano, podia observar a rua através da janela, o vidro estava embaçado e a árvore na beira da linha do trem parecia tanto mais sombria, solitária. “Sozinho sou eu”. Agora, com as duas mãos sobre o piano, começou a tocar. Será que pensava? Executava... Do lado de fora anoitecia. O frio. Vento levando embora. Já não podia. Angústias. Levantou-se, precisava beber, precisava fumar, fumou. Fumaças que invadiam e anuviavam a sala abriam um caminhozinho para seu pensar. Larissa. Larissa era branca, magra, linda, bailarina. Larissa fazia amor sem pudor. Quem não faria? Nosso jovem inclina-se numa poltrona, apaga o cigarro, e aos poucos, vai adormecendo. Sonhos... O inexplicando-se. Na verdade e no fundo, o homem é apenas a sombra de um sonho. O Homem sonha! Sonha que sonha. Quando acorda sonha lembrança de sonho. Será? Seria? Real.
Barulho rangendo em meio a noite, o pianista desperta, teria dormido? Algo toca os telhados, mas não há incômodo neste barulho, ao contrário... Tal barulho embalava. Haveria alguém lá fora? O rapaz não dormia. “Quem é que toca os telhados a essa hora?” As crianças dormem. Alguma mulher repousa a face cansada no travesseiro, não dorme, devaneia. Algum homem se apega junto ao fogo, pensando em que? em quem? Em nada talvez.
"O que é que toca os telhados a essa hora?" Se pergunta aflito, aflição que se espalha pelo ar, aquela sala não o acolhe, não mais. É intenso demais o vigor que lhe palpita no peito. Intensidade meramente fugaz.Quem afaga os telhados são as telhas que se tocam, pois o vento sopra forte e choverá a qualquer hora. O jovem não consegue permanecer deitado. Como é possível dormir com um turbilhão dentro do peito? Quando o sopro que anima a alma se transforma em tufão o próprio corpo já não é mais um abrigo seguro. É preciso se precipitar ao telhado e deparar-se com o ignoto, esse desconhecido que paira no horizonte, toma as feições do vento forte que lhe bate no rosto e balança as telhas das casas e derruba as folhas das árvores. O homem mede forças com aquilo que desconhece e normalmente acaba arrasado, destruído, mas por um único motivo apenas; há nele a memória de sentir-se devastado.
Uma gota toca-lhe a nuca, outra despetala a flor, finda a ventania com um suspiro do rapaz.
Agora chove. Chove. Apenas e simplesmente chove.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Meu sonho

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?.
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!.

Álvares de Azevedo

domingo, 1 de novembro de 2009

Sem paz, sem amor, sem teto
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Oh Mestre Bashô



Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração
detem-se e chora na noite...


Outono
Empoleirado num ramo seco
um corvo


Viagem de anciões,
Cabelos brancos, bastões-
visita aos túmulos.


E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?


Ameixeira em flor
o rio leva de verdade
suas flores refletidas?


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vendida

Oh Deus eu me pergunto:
O que é a arte hoje em dia?
O que seria meu Deus?
A arte hoje em dia, oh! O que seria?
Um cuspe fincado no chão!
Uns e alguns, sim diriam.
Seria?
Sim! Sim!
Poderia.
E provavelmente muitos opinariam
e teceriam
seus comentários
e pensariam
e rediriam.
Mas e a arte oh Deus?! Seria isto?
Seria? Seria?
Opiniões importantes sobre
um chão cuspido?
E afinal esta poesia?
Sim. Esta poesia.
Seria arte? Alguém diria?
Eu diria! Claro! Diria!
Mas quem mais?
Alguém mais diria?
Quem diria?
Quem?!
Dole uma
dole duas
dole três!

Poesia Socrática

Era aula e eu ouvia, mas sentia
Dois olhos, que me queriam
Ah... Como queriam.
Ele lá eu cá
E nossos olhos, ali, nos unindo.
Eu não sabia
Ele não sabia
Não sabíamos...
Sabíamos?
O olhar entrega a vontade da alma
Ele me queria, queria meus olhos queria meu corpo
E eu correspondia
Também o queria!
Se queria...
Foi quando no tão esperado
“Fim de aula”
Encontramos-nos!
Frente à frente;

Ele sorriu
Eu sorri
E ri.

A medicina não engana.
Almas! Que almas?
“Astigmatisme vous savez?!”

domingo, 11 de outubro de 2009

Encontros e Desencontros

Vou errando pelos caminhos,
por essas vias,
a vida.
Andar, carece de vagar no passo.
Assim passo,
me perdendo... (Só pode ser este, o dito compasso!)
...E turbilhão!
Cá estou eu, de novo, no ponto de partida.
Rumar é andança,
Ê dancinha danada,
dança de errância.
Trilhos já dados não bastam!
Ruela bem asfaltada?
A de ó! Isso é coisa de beato!
Viver é desbravar mata fechada.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Primeiras chuvas de inverno

meu nome poderia ser apenas

"Viajante".


Bashô

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Terra de Dante (Firenze)


Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fora de Hora

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora não madurada
ou demasiado madura?

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar escada.

Drummond (lembraça das aulas do Afonso)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Anoitece e tua boca continua fechada

Função e essência
Somos e não somos

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Orvalho da noite
tocando as folhas.
Inverno no Brasil

terça-feira, 30 de junho de 2009

Devagar devagar,
a folha sem escolha,
vaga pelo ar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Poema de Baschô

Este caminho!
Sem ninguém nele
Escuridão de outono.

segunda-feira, 30 de março de 2009

águas de março que fecham o verão

Volto para casa enfim. A semana inteira no centro da cidade é algo que desnorteia; Pois olho da janela do meu quarto, e o que vejo é disforme, sem ritmo... Prédios enormes, sujos, se esbarrando um nos outros, emparelhados em ruelas feias, estúpidas e promíscuas. A vista da cidade é cansativa, as pessoas igualmente. Falam, falam, falam, ai Deus como falam! Sorte que tenho um defeito que veio a calhar em virtude. Quando começam a falar demais no meu ouvido as palavras começam a se perder, vira tudo palavrório desconexo, que eu não entendo. Falam demais, desbafam demais... "Eta vidinha besta"
Mas voltando para casa, tudo vai ficando mais agradável. Primeiro a paisagem, que se engrandece pelo horizonte, depois, de hora em vez da pra ver vaca, comendo capim, bailando co' as ancas, mugindo de querência, riscando pasto nas patas. Eis a minha zoninha rural, é daqui que eu gosto. Campo Grande!, é claro, nem toda Campo Grande é assim, pena, anda aderindo-se demais ao Rio de Janeiro.
Mas não foi sempre assim, antigamente aqui parecia a Sicília. Isso contava meu pai, justificando o motivo de ter escolhido este lugar como abrigo. Dizia ele, que na Sicília também havia montes de capim quase seco, com casinhas bem pobres espalhadas a um canto e outro, tinha muito pé de laranja, muita cabrinha brincando, muito bicho solto... Campo Grande ainda tem disso.
Vou me aproximando de onde moro. As ruas de paralelepípedos vão dando o tom do passo. Molhadas ainda, com folhas e pocinhas no chão, com o moço que limpa a rua varrendo, com a dona Maria me dando um oi, falando pra aparecer em casa dela mais tarde...
Em casa a cozinha é meu azilo(por favor sem piadinhas) esses dias minha mãe me esperava com bolo de chocolate, que eu tava pedindo faz tempo. Daí as horas vão passando ali mesmo, na cozinha, prosa boa, confiante..., de tardinha aparece algum vizinho pra passar o tempo também... Parece que é só assim que me sinto em casa, é só assim que fico a vontade, de nenhuma outra maneira, mas assim., e num adianta forçar simplicidade, isso pra mim, é das coisas mais ridículas que se tem.
De tarde vou a janela e fico olhando o céu, chuvoso, a rede, molhada, os cachorros,lamacentos, o pé de ypê, quase em flor... Ouço bem longe o celular tocar, não atendo, não gosto de atender mesmo, e provavelmente não gosto de quem será; porque amigo meu mesmo sabe que sou assim e acaba nunca ligando, deixa por conta da vida os nossos encontros, ou então vai lá em casa e pronto. E mesmo se eu num fosse assim, tão ensimesmadinha, não atenderia, ainda mais quando estou na melhor parte do livro, onde não é o clímax, não há tensão, e nem é o fim, mas aquele momento na qual o escritor já cansado de sua imaginação, deixa a personagem viver por si. Da janela, sem pensar, apenas olhando, a chuva cair.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Pra não falarem que parei

Lembrança de Tom Sawyer

Bolhinhas que fazem cosquinha no nariz
refrigerante
mundo que flutua pelo ar
bolha de sabão
Que prazer! Não ter nada o que fazer.

Perdi o papel em que o havia escrito, tentei lembrar mas num ficou igual! Depois eu vejo...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009