Já não havia mais folhas naquela árvore que beirava a linha do trem. Era outono. O sol já não fazia presença, anoitecia sem tarde. “É outono” o jovem pensava. Sentado em frente ao piano, podia observar a rua através da janela, o vidro estava embaçado e a árvore na beira da linha do trem parecia tanto mais sombria, solitária. “Sozinho sou eu”. Agora, com as duas mãos sobre o piano, começou a tocar. Será que pensava? Executava... Do lado de fora anoitecia. O frio. Vento levando embora. Já não podia. Angústias. Levantou-se, precisava beber, precisava fumar, fumou. Fumaças que invadiam e anuviavam a sala abriam um caminhozinho para seu pensar. Larissa. Larissa era branca, magra, linda, bailarina. Larissa fazia amor sem pudor. Quem não faria? Nosso jovem inclina-se numa poltrona, apaga o cigarro, e aos poucos, vai adormecendo. Sonhos... O inexplicando-se. Na verdade e no fundo, o homem é apenas a sombra de um sonho. O Homem sonha! Sonha que sonha. Quando acorda sonha lembrança de sonho. Será? Seria? Real.
Barulho rangendo em meio a noite, o pianista desperta, teria dormido? Algo toca os telhados, mas não há incômodo neste barulho, ao contrário... Tal barulho embalava. Haveria alguém lá fora? O rapaz não dormia. “Quem é que toca os telhados a essa hora?” As crianças dormem. Alguma mulher repousa a face cansada no travesseiro, não dorme, devaneia. Algum homem se apega junto ao fogo, pensando em que? em quem? Em nada talvez.
"O que é que toca os telhados a essa hora?" Se pergunta aflito, aflição que se espalha pelo ar, aquela sala não o acolhe, não mais. É intenso demais o vigor que lhe palpita no peito. Intensidade meramente fugaz.Quem afaga os telhados são as telhas que se tocam, pois o vento sopra forte e choverá a qualquer hora. O jovem não consegue permanecer deitado. Como é possível dormir com um turbilhão dentro do peito? Quando o sopro que anima a alma se transforma em tufão o próprio corpo já não é mais um abrigo seguro. É preciso se precipitar ao telhado e deparar-se com o ignoto, esse desconhecido que paira no horizonte, toma as feições do vento forte que lhe bate no rosto e balança as telhas das casas e derruba as folhas das árvores. O homem mede forças com aquilo que desconhece e normalmente acaba arrasado, destruído, mas por um único motivo apenas; há nele a memória de sentir-se devastado.
Uma gota toca-lhe a nuca, outra despetala a flor, finda a ventania com um suspiro do rapaz.
Agora chove. Chove. Apenas e simplesmente chove.