quinta-feira, 18 de julho de 2013

Encontro com Álvaro de Campos

Não cala
Não cala
Não cala.
De dentro a fora
de fora por dentro
bem dentro
lá dentro
não cala
não passa
perpassa
transita
alisa
paralisa
não cala.

Engole
não cala
boceja
não cala
disfarça
não cala
consome por dentro
de dentro a fora
de fora por dentro
enforca
degola
esquenta e
esgota
não cala.

Sussurro no fundo
no fundo do peito
anseio
anseio
anseio
receio.
Se parto
não cala
se fico
não cala
se finjo
não cala.

vozes perdidas
querendo existir
todas as luzes
acesas por dentro
lá dentro
bem dentro.

Não cala
não passa
apavora
e ameaça.
Há tormenta.

(...)

Oh! Absurdos!
Vocês são o mundo
que escapa a todo momento.
Vou arrumar às malas!
Acender o cigarro!
Entrar no navio!

(entrei)

(Com uma mão segura o leme, com a outra aponta além: Álvaro de Campos)

"_Rumo ao Oriente!
Um oriente
ao oriente
do oriente.
Lá! Lá! Lá!
E não aqui.
Mas não será tão lá
o aqui?
Lá, terei eu nostalgia de existir?
Somos convalescentes do momento e
moramos no rés-do-chão do pensamento"

Dei um soco no Álvaro de Campos!
Tomei o leme!
"_Partir!"
Fumando ópio
ele cantava ao meu ouvido
"_Vai, vai, vai!, mas saiba:
não cala
não cala
não cala."




domingo, 20 de janeiro de 2013

Mãe e filha e filha

Foi que tive vontade de chorar, mas não consegui.

Ontem minha avó morreu; não éramos próximas, e, sempre vi algo de malvado e perverso em sua personalidade. Ela sempre enxergava o mal antes do bem, as pessoas todas do mundo já eram ruins por existirem, tudo era o mal pairando ao redor; a mulher que passava apressada na rua não iria ao trabalho, mas, encontrar o leiteiro. A menina que brincava doce com a bola logo estaria grávida, meu tio iria falir, minha mãe iria surtar, etc, etc. Com a noticia de sua morte, curioso, não foi nada disso que me veio à mente. Lembrei de coisas muito vagas, numa infância remota, quando ela distribuía balas aos netos, e, notando minha insatisfação enchia, escondido, para que nenhum outro neto visse, meus bolsos de bala. Um dia ela me perguntou: " E o que você vai ser quando crescer?" "Astronauta." E vó Adelaide ria completando "essa dai é mesmo aluada".
Fico pensando, se um dia eu for bem velha e acabar vendo todas as coisas como vovó Adelaide, será que experiência de vida é enxergar as coisas todas ruins? O mundo é assim tão mau, e todo aprendizado nos ensina a desconfiar?

Ontem eu soube de sua morte...
_ Mas mãe... Você achava que a vovó viveria para sempre? _ E chorando ela respondeu:
_ Eu queria. A gente nunca pensa que vai perder nossa mãe.

Tive vontade de chorar, mas não consegui.


 

sábado, 19 de janeiro de 2013

As horas destiladas

Verdade seja dita, não que seja a primeira vez, mas hoje posto bêbada! Estupidamente bêbada. Embora não saiba bem, ainda, o que escrever, acabo de tomar uma grande decisão! Escreverei todos os dias neste blog! E é assim que começa a dita estória, afinal.

Estava num bar com dois amigos quando lá pelo meio litro de cachaça resolvemos, os três, espontaneamente, que viajaríamos para a Rússia! Quando? Não sabíamos. Como? Estávamos tontos, oras, o "como?" lá faz sentido para quem bebe? Pouco importa, Rússia! E brindamos mais uma vez. No lusco-fusco do riso com fumaça de cigarro, percebemos, que o garçon que nos servia se chamava, curiosamente, Vladmir. Neste momento notamos que Vladmir não falava nossa língua e enchia nossos copos de vodka "smiwiskaiowska", a pura destilada siberiana! João pé torto, meu amigo, foi o primeiro a notar: "Gente, estamos na Rússia, vejam, quem nos serve é até um tal de Vladmir!" Confesso que no fundo de meu âmago havia algo ainda sóbrio, mas... Seria possível? Vladmir agora estava encostado na entrada do bar e nos encarava com aqueles olhinhos perdidos e apertados, dignos de um russo, estaria eu, tão já, assim, na Rússia?

Tudo foi um chacoalhar dos instantes do tempo e das horas. Eu estava na Rússia, sentada com meus dois amigos, vivendo uma situação que aconteceu no passado, quando, por um mero acaso, ou força do hábito, bebíamos, e, nos prometíamos que iríamos à Rússia.

O tempo se turbilhonou em nossas cabeças, passado, presente e futuro se confundiram de tal forma que por um mero instante, nós três acreditávamos estar ainda no Brasil desejando estar na Rússia.  O mais curioso e estupefiante foi perceber como agora, tudo isso, já era um passado impalpável e inexistente lutando para sobreviver nesta torta, trôpega, mas justa, prosa.