O uivo de um lobo
Por traz da montanha
Um raio de sol.
terça-feira, 20 de julho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Campo de Trigo sob Um Céu Nublado
Necessidade,
minha vontade de rumar ao norte.
Há um caminho à trilhar. Há?
Há de haver, haverá.
Mas que norte que não o aqui?
Este norte... Desejo de morte
vida e morte.
Aquele campo de trigo
sob aquele céu nublado
nada me diziam
quando eu os contemplava.
Hoje porém, eles me dizem muito mais.
Antes eu os via e os sentia,
agora eu simplesmente os quero
aqueles campos de trigo sob um céu nublado.
Indigente trilhando
caminhos de trigo.
Um céu nublado
mira-o.
Homem que segue no campo
e contempla o trigo:
Viverás para sempre,
desnorteado.
Suzana
minha vontade de rumar ao norte.
Há um caminho à trilhar. Há?
Há de haver, haverá.
Mas que norte que não o aqui?
Este norte... Desejo de morte
vida e morte.
Aquele campo de trigo
sob aquele céu nublado
nada me diziam
quando eu os contemplava.
Hoje porém, eles me dizem muito mais.
Antes eu os via e os sentia,
agora eu simplesmente os quero
aqueles campos de trigo sob um céu nublado.
Indigente trilhando
caminhos de trigo.
Um céu nublado
mira-o.
Homem que segue no campo
e contempla o trigo:
Viverás para sempre,
desnorteado.
Suzana
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Aquilo que a gente pensa uma vez volta novamente com vontade de nos avassalar? Ah me lembro... Eu me lembro. Essas idéias do coração. São elas que nos dão as maiores alegrias , as piores tristezas. Provações de vida eu diria. Quero que todo mundo na vida seja guiado por algo assim. Mas sem medo, por favor sem medo. Foi em Nova Alegria que li uma vez um livro que me ensinava isso. Aquele, o grande livro da minha vida. Uma vez, fazendo cerca ao redor de casa, delimitando meu terreno, aquele vilarejo de Nova Alegria não contava muitos homens àquela época, as terras eram imensidões, campos, pastos, mato muito. Era terra que não cabia em limite algum. Eu poderia impor a cerca onde bem entendesse, quem é que me diria “Aqui senhor, aqui num é o teu lugar.” Quem me diria? Mas eu mais minha mulher tínhamos apenas algumas galinhas, uns frangos, umas mudinhas de boldo, cebolinha, camomila, dessas ervas. Para que crescer os olhos em grandes terras? São estúpidas essas guerras. O que é meu nesse mundo me diga? Bom para mim, sempre foi construir estradas. Construindo essa cerquinha eu ia. Era um sábado. Devia de ser sábado, no prolongar da semana sempre fui de trabalhar na rua, os sábados em casa. Trabalhar enobrece a alma, saiba disso. Passava um homem naquela estradinha de terra, era um moço local, pitava cigarro de palha e usava um chapéu de couro velho, rasgado, maltratado chapéu. O homem vinha arrastando um baú e desde muito longe eu escutava o barulho das rodinhas tentando deslizar por terras secas e pedrinhas de cascalho.
_ O sinhô num gostaria de comprar uns livros? Alguma coisa eu disse ao homem que o cujo me refez a pergunta me tratando agora por doutor._ A gente de Nova Alegria têm por costume chamar de doutor aqueles que falam com sotaque estrangeiro Para aquele homem, doutor eu era, e ao longo do tempo a fama se espalhava pelo local.
_ O que o sinhô doutô puder pagar por eles...
_ Ande homem! Calcule o preço desses teus livros, vá!
_ Sei não doutô. O sinhô doutô é quem deve de saber quanto vale um livro, eu digo é que aqui têm pra mais de dez, isso o doutô pode verificar e fazê as ditas conta. _Haviam muitos livros naquele baú. A maioria fazia parte de uma coleção de contos juvenis, histórias grandes recontadas, facilitadas para as crianças tomarem gosto pela leitura. Para mim esses livros perdem mesmo a graça. Criança que têm gosto para o ler, ler o que bem entende, mesmo o difícil. Dalí o que li foi um apenas. E que grande obra aquela, foi lá que reconheci que não se deve de ter medo de nada nessa vida. Que o medo é o diabo dizendo que não em nosso ouvido, quando o corpo e o coração dizem sim. Eu fui sempre e todo só corpo. Essas foram as minhas vontades. E quantas angústias não me abateram? Quem vive sabe, quem vive passa. Carece de viver. Fico observando essa juventude mocinha de hoje, será que eles vivem? Eu sei - lá? Paro de me perguntar, ninguém nunca compreende bem os jovens, vá saber o que eles pensam, o que eles são e o que serão. Mas quando jovem, ah..., vivi! Sim, eu vivi. Vim de muito longe e nunca mais voltei pra minha terra, mas saiba que também num parei por canto algum. Andarilhei. Claro, claro que gostei dos lugares, me apeguei, por vezes quis ficar. Querer algo já era motivo para ir embora. Hoje percebo que foi isso. Eu sempre quis não querer. Eu nunca quis querer, mas foi por conta de algo que eu só quis e quis muito que essa coisa de não querer quis em mim. Aquele livro que li. Aquele livro grande, lia por vezes nos dias de chuva, noites tempestuosas do verão sempre da Bahia, nos domingos à tarde, aham, eu lia. Sim sim. Personagem principal daquela obra era coisa que me encantava por demais. Como eu gostava! Por vezes dizia “Sou eu esse homem.” Mas não sou, não era eu. Como é que podia eu de ser o homem do livro? Mas nós dois, isso sim, nós dois sentíamos igual. Irmanados no sentimento. Nova Alegria. Queria saber como vai hoje Nova Alegria. Trinta, quarenta anos depois. Naquela época não havia eletricidade, água encanada, televisão? Faz-me rir, faz-me rir... Nada. Não tinha luxo, dessas facilidades que vão nos deixando moles com o passar dos anos. Pois aí está! Deve de ser esse o problema que vejo nos mocinhos de hoje. Juventude mole essa... E olha que têm tudo nas mãos. Apertam um botão e luz, televisão, computador. No meu tempo era suor na testa mesmo. Ah... num implico com os jovens não, que culpa os coitados têm? É questão de criação... Aham, pois é...
Embirro mesmo com o demônio dessa época! Tenebrosa escuridão essa nossa. Mas naquele vilarejozinho de Nova Alegria eu num pensava nessas coisas. Ali a vida era apenas passar dos dias, nem tempo de pensar lembro que tinha. Engraçado? E justamente porque ali nada havia, que o tédio, o tal do tédio não vinha, eu num tinha. Ter muito o que fazer, põe o homem sempre em situação de fuga, ali, eu tinha pouco. Era eu e meus afazeres que reinavam naqueles cantos. Eu abria caminhos. Engenheiro. Senhor doutor engenheiro como os moradores me chamavam,mas essa alcunha de doutor, só por ter vindo de longe, nunca gostei. Eu nunca fui doutor. Parecia até que a gente local glosava de mim. Eu, quem eu era? Um italiano encontrado na Bahia por uns tempos. Mal falava a língua. Mas pouco importava o idioma, bonito era imaginar as curvas e as retas de uma estrada se cravando em meio a mata fechada. Aquele era o meu papel, ver medir e abrir caminho. Vendo fazendo, fazendo vendo. Coisa bonita é o asfalto brilhando contra o sol. Máquinas, furadeiras tratores, vigas, blocos, cimento, concreto! Tenho ânimo! Não sou afetado mas sinto as coisas. Sangue italiano, que seja. Mas era beleza das grandes construir aquelas estradas e não era só tudo isso. Andava enfeitiçado, encantado, ou não era eu um desbravador do novo mundo? O italiano na América. Quantas felicidades... Vi minha terra destruída pela guerra. Itália tão clássica, Itália tão linda. Tudo desmorona numa guerra. As torres romanas, etruscas, que tortas compunham sua simetria, as portas das cidades, que desde o início dos tempos eram cercadas por muralhas, os feudos, os burgos, tudo abaixo, tudo destruído eu vi. Durante a guerra, cada vez que saía do esconderijo subterrâneo eu via apenas fumaça das cidades, as clássicas ruínas destruídas, para sempre. Um dia, subindo as montanhas da Toscana com meus pais e minha irmã não encontramos mais nossa casa. Não havia mais teto, sequer paredes inteiras, móveis a vista, destroços ao redor. Nossa casa destruída. Vagamos, vagamos durante a guerra. Cinco, sete, dez anos... Quanto demorou a guerra? Num lembro. Mas todos nós atravessamos grandes guerras a cada dia. Guerra sempre há e que Deus me perdoe, guerra há de haver.
América! America mia! No mundo novo não havia mais aquelas ruínas que nem eu e ninguém mais conseguiria trazer a tona novamente. A Minha Itália da infância, renasceria? Ah..., mas a América era o meu por fazer. Bonito é ter papel em branco e projetar nele um desenhinho qualquer. Isso é muito bonito, o molde, maquete. Mas eu gostava de trabalhar, de apalpar o meu desenho, eu queria trazer para o real. Arquitetei, construí um mundo, o mundo novo. América meu novo mundo! A obra crescia, os moradores passaram a me conhecer, agradeciam meus serviços, toda semana era um fazendeiro que mandava matar um boi em honra a minha pessoa. Em casa apareciam nos fins de semana, trocavam prosa, davam o presente, procuravam saber o porquê da estrada, quem chefiava, as verbas... Conversas intencionaizinhas sabe? Eram tardes que iam. Havia sempre alguém em minha sala, dona Gertrude trocando dicas de crochê com minha esposa, menino leleco que passa em sua bicicletinha para nos oferecer o leite e acabava entrando, tomava café, esperava a papa de milho, brincava com as galinhas. Menino leleco era mocinho gentil, falante, mas daqueles que também sabem ouvir. Garoto agradável, simples, trabalhava para o pai, que era um grande fazendeiro local. Leleco era o caçula de quatro filhos, os três mais velhos estudavam direito na capital. Desde cedo notara o pai que o mais novo dos filhos não levava jeito para os estudos. Fazendeiro seria. Eu gostava muito daquele menino, até mesmo como se filho fosse. Hora por vez surgia em meu quintal, arrastando a bicicleta e segurando uma bola de meia, espertinho manso perguntava com malícia de quem num quer incomodar:
_Será que o senhor doutor estaria cansado para um amistoso futebol? _ Nós brincávamos por horas, naquela brincadeira eu me elevava menino tal qual ele, leleco devia de beirar treze, quinze anos, não mais. Findando o jogo, assávamos umas espigas de milho verde num improviso de fogueira. Minhas joviais conversas revindo. Acho que vivi muitas coisas de novo naquelas noites com leleco.
_Como foi que o senhor conheceu a senhora tua patroa?
_Praia do Prado.
_Mas foi como? Como foi? _ A modo que perguntava arregalava os olhinhos para ver a expressão de minha cara, se notasse alguma nuvem, logo logo mudava o rumo da prosa. Eu achava era muita graça.
_ Eu é quem lhe pergunto “Como foi?” foi como leleco?
_Ah, o senhor me percebe. Mas num conte à ninguém não, a menina Rosinha, aquela da mercearia que passa os dias arrumando prateleiras. Sabe ela? Sabe? _Ele descrevia a mocinha, eu lembrava sim, mas dizia que não, só para ouvi-lo explicar, desenhar a moça nos dizeres próprios dele menino.
_Mas ela é bonita feito flor de laranjeira. Menina que ajeita prateleiras, tenho uns comparsas que dizem que dessas são as mais nervosas de chatas mulheres que existem, para mim comigo eu penso que Rosinha deve de ter virtudes de organização. _ Então o menino sonhava a casinha dele com Rosinha dentro, ele indo para os campos tocar os bois, verificar as vacas, chegando em casa à tarde, com as botas barrentas e sua florzinha de laranjeira lhe aguardando com bolo de milho, café quentinho, mandioca. Depois à noitinha os dois iam balançar na rede, namorar. Mas que lugarzinho difícil esse menino vai inventar de namorar, “num sabe de nada” eu pensava comigo. Na rede? Carece de equilíbrio viu? Mas sempre apreciei as vontades daquele menino. Sonhos que eu mesmo, naquela idade não tinha. Que sonhos tive? Aquele leleco, contava, falava enquanto eu aprovava o milho e a cachacinha boa da região baiana, presente também, dos moradores. O menino bebericava comigo e contava suas modas, seus modos, ah, como sonhava! Eram seus sonhos e um céu que só estrelas que nos cercavam. A vida com seus sublimes.
_ O sinhô num gostaria de comprar uns livros? Alguma coisa eu disse ao homem que o cujo me refez a pergunta me tratando agora por doutor._ A gente de Nova Alegria têm por costume chamar de doutor aqueles que falam com sotaque estrangeiro Para aquele homem, doutor eu era, e ao longo do tempo a fama se espalhava pelo local.
_ O que o sinhô doutô puder pagar por eles...
_ Ande homem! Calcule o preço desses teus livros, vá!
_ Sei não doutô. O sinhô doutô é quem deve de saber quanto vale um livro, eu digo é que aqui têm pra mais de dez, isso o doutô pode verificar e fazê as ditas conta. _Haviam muitos livros naquele baú. A maioria fazia parte de uma coleção de contos juvenis, histórias grandes recontadas, facilitadas para as crianças tomarem gosto pela leitura. Para mim esses livros perdem mesmo a graça. Criança que têm gosto para o ler, ler o que bem entende, mesmo o difícil. Dalí o que li foi um apenas. E que grande obra aquela, foi lá que reconheci que não se deve de ter medo de nada nessa vida. Que o medo é o diabo dizendo que não em nosso ouvido, quando o corpo e o coração dizem sim. Eu fui sempre e todo só corpo. Essas foram as minhas vontades. E quantas angústias não me abateram? Quem vive sabe, quem vive passa. Carece de viver. Fico observando essa juventude mocinha de hoje, será que eles vivem? Eu sei - lá? Paro de me perguntar, ninguém nunca compreende bem os jovens, vá saber o que eles pensam, o que eles são e o que serão. Mas quando jovem, ah..., vivi! Sim, eu vivi. Vim de muito longe e nunca mais voltei pra minha terra, mas saiba que também num parei por canto algum. Andarilhei. Claro, claro que gostei dos lugares, me apeguei, por vezes quis ficar. Querer algo já era motivo para ir embora. Hoje percebo que foi isso. Eu sempre quis não querer. Eu nunca quis querer, mas foi por conta de algo que eu só quis e quis muito que essa coisa de não querer quis em mim. Aquele livro que li. Aquele livro grande, lia por vezes nos dias de chuva, noites tempestuosas do verão sempre da Bahia, nos domingos à tarde, aham, eu lia. Sim sim. Personagem principal daquela obra era coisa que me encantava por demais. Como eu gostava! Por vezes dizia “Sou eu esse homem.” Mas não sou, não era eu. Como é que podia eu de ser o homem do livro? Mas nós dois, isso sim, nós dois sentíamos igual. Irmanados no sentimento. Nova Alegria. Queria saber como vai hoje Nova Alegria. Trinta, quarenta anos depois. Naquela época não havia eletricidade, água encanada, televisão? Faz-me rir, faz-me rir... Nada. Não tinha luxo, dessas facilidades que vão nos deixando moles com o passar dos anos. Pois aí está! Deve de ser esse o problema que vejo nos mocinhos de hoje. Juventude mole essa... E olha que têm tudo nas mãos. Apertam um botão e luz, televisão, computador. No meu tempo era suor na testa mesmo. Ah... num implico com os jovens não, que culpa os coitados têm? É questão de criação... Aham, pois é...
Embirro mesmo com o demônio dessa época! Tenebrosa escuridão essa nossa. Mas naquele vilarejozinho de Nova Alegria eu num pensava nessas coisas. Ali a vida era apenas passar dos dias, nem tempo de pensar lembro que tinha. Engraçado? E justamente porque ali nada havia, que o tédio, o tal do tédio não vinha, eu num tinha. Ter muito o que fazer, põe o homem sempre em situação de fuga, ali, eu tinha pouco. Era eu e meus afazeres que reinavam naqueles cantos. Eu abria caminhos. Engenheiro. Senhor doutor engenheiro como os moradores me chamavam,mas essa alcunha de doutor, só por ter vindo de longe, nunca gostei. Eu nunca fui doutor. Parecia até que a gente local glosava de mim. Eu, quem eu era? Um italiano encontrado na Bahia por uns tempos. Mal falava a língua. Mas pouco importava o idioma, bonito era imaginar as curvas e as retas de uma estrada se cravando em meio a mata fechada. Aquele era o meu papel, ver medir e abrir caminho. Vendo fazendo, fazendo vendo. Coisa bonita é o asfalto brilhando contra o sol. Máquinas, furadeiras tratores, vigas, blocos, cimento, concreto! Tenho ânimo! Não sou afetado mas sinto as coisas. Sangue italiano, que seja. Mas era beleza das grandes construir aquelas estradas e não era só tudo isso. Andava enfeitiçado, encantado, ou não era eu um desbravador do novo mundo? O italiano na América. Quantas felicidades... Vi minha terra destruída pela guerra. Itália tão clássica, Itália tão linda. Tudo desmorona numa guerra. As torres romanas, etruscas, que tortas compunham sua simetria, as portas das cidades, que desde o início dos tempos eram cercadas por muralhas, os feudos, os burgos, tudo abaixo, tudo destruído eu vi. Durante a guerra, cada vez que saía do esconderijo subterrâneo eu via apenas fumaça das cidades, as clássicas ruínas destruídas, para sempre. Um dia, subindo as montanhas da Toscana com meus pais e minha irmã não encontramos mais nossa casa. Não havia mais teto, sequer paredes inteiras, móveis a vista, destroços ao redor. Nossa casa destruída. Vagamos, vagamos durante a guerra. Cinco, sete, dez anos... Quanto demorou a guerra? Num lembro. Mas todos nós atravessamos grandes guerras a cada dia. Guerra sempre há e que Deus me perdoe, guerra há de haver.
América! America mia! No mundo novo não havia mais aquelas ruínas que nem eu e ninguém mais conseguiria trazer a tona novamente. A Minha Itália da infância, renasceria? Ah..., mas a América era o meu por fazer. Bonito é ter papel em branco e projetar nele um desenhinho qualquer. Isso é muito bonito, o molde, maquete. Mas eu gostava de trabalhar, de apalpar o meu desenho, eu queria trazer para o real. Arquitetei, construí um mundo, o mundo novo. América meu novo mundo! A obra crescia, os moradores passaram a me conhecer, agradeciam meus serviços, toda semana era um fazendeiro que mandava matar um boi em honra a minha pessoa. Em casa apareciam nos fins de semana, trocavam prosa, davam o presente, procuravam saber o porquê da estrada, quem chefiava, as verbas... Conversas intencionaizinhas sabe? Eram tardes que iam. Havia sempre alguém em minha sala, dona Gertrude trocando dicas de crochê com minha esposa, menino leleco que passa em sua bicicletinha para nos oferecer o leite e acabava entrando, tomava café, esperava a papa de milho, brincava com as galinhas. Menino leleco era mocinho gentil, falante, mas daqueles que também sabem ouvir. Garoto agradável, simples, trabalhava para o pai, que era um grande fazendeiro local. Leleco era o caçula de quatro filhos, os três mais velhos estudavam direito na capital. Desde cedo notara o pai que o mais novo dos filhos não levava jeito para os estudos. Fazendeiro seria. Eu gostava muito daquele menino, até mesmo como se filho fosse. Hora por vez surgia em meu quintal, arrastando a bicicleta e segurando uma bola de meia, espertinho manso perguntava com malícia de quem num quer incomodar:
_Será que o senhor doutor estaria cansado para um amistoso futebol? _ Nós brincávamos por horas, naquela brincadeira eu me elevava menino tal qual ele, leleco devia de beirar treze, quinze anos, não mais. Findando o jogo, assávamos umas espigas de milho verde num improviso de fogueira. Minhas joviais conversas revindo. Acho que vivi muitas coisas de novo naquelas noites com leleco.
_Como foi que o senhor conheceu a senhora tua patroa?
_Praia do Prado.
_Mas foi como? Como foi? _ A modo que perguntava arregalava os olhinhos para ver a expressão de minha cara, se notasse alguma nuvem, logo logo mudava o rumo da prosa. Eu achava era muita graça.
_ Eu é quem lhe pergunto “Como foi?” foi como leleco?
_Ah, o senhor me percebe. Mas num conte à ninguém não, a menina Rosinha, aquela da mercearia que passa os dias arrumando prateleiras. Sabe ela? Sabe? _Ele descrevia a mocinha, eu lembrava sim, mas dizia que não, só para ouvi-lo explicar, desenhar a moça nos dizeres próprios dele menino.
_Mas ela é bonita feito flor de laranjeira. Menina que ajeita prateleiras, tenho uns comparsas que dizem que dessas são as mais nervosas de chatas mulheres que existem, para mim comigo eu penso que Rosinha deve de ter virtudes de organização. _ Então o menino sonhava a casinha dele com Rosinha dentro, ele indo para os campos tocar os bois, verificar as vacas, chegando em casa à tarde, com as botas barrentas e sua florzinha de laranjeira lhe aguardando com bolo de milho, café quentinho, mandioca. Depois à noitinha os dois iam balançar na rede, namorar. Mas que lugarzinho difícil esse menino vai inventar de namorar, “num sabe de nada” eu pensava comigo. Na rede? Carece de equilíbrio viu? Mas sempre apreciei as vontades daquele menino. Sonhos que eu mesmo, naquela idade não tinha. Que sonhos tive? Aquele leleco, contava, falava enquanto eu aprovava o milho e a cachacinha boa da região baiana, presente também, dos moradores. O menino bebericava comigo e contava suas modas, seus modos, ah, como sonhava! Eram seus sonhos e um céu que só estrelas que nos cercavam. A vida com seus sublimes.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Minha Vaidade
Essa vida libertina
é mais um passo
pois ser errante
é meu acerto
e essa errância é meu governo.
Mas se um dia eu olhar para trás
verei o que fiz
e não o que poderia ter feito.
Todos estes erros e acertos
não são meus meros e sinceros defeitos,
meu rumo são descaminhos
per-feitos!
é mais um passo
pois ser errante
é meu acerto
e essa errância é meu governo.
Mas se um dia eu olhar para trás
verei o que fiz
e não o que poderia ter feito.
Todos estes erros e acertos
não são meus meros e sinceros defeitos,
meu rumo são descaminhos
per-feitos!
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
De repente a hora
E deu-se a hora.
foi quando quanda ...
Noites de muitas estrelas
de muitos sussurros
e todo frescor.
Moça, que caminha na rua,
morena passante
vestido dançante,
exala calor.
Homem, parado num canto
fumando cigarro,
segura uma flor.
Todos os Deuses presentes
petrificados _entes_
contemplam eternos
abençoando ternos
uma estória de amor.
foi quando quanda ...
Noites de muitas estrelas
de muitos sussurros
e todo frescor.
Moça, que caminha na rua,
morena passante
vestido dançante,
exala calor.
Homem, parado num canto
fumando cigarro,
segura uma flor.
Todos os Deuses presentes
petrificados _entes_
contemplam eternos
abençoando ternos
uma estória de amor.
domingo, 17 de janeiro de 2010
Los Amantes

¿Quién los ve andar por la ciudad
si todos están ciegos ?
Ellos se toman de la mano:
algo habla entre sus dedos,
lenguas dulces lamen la húmeda palma,
corren por las falanges,
y arriba está la noche llena de ojos.
Son los amantes, su isla flota a la deriva
hacia muertes de césped, hacia puertos
que se abren entre sábanas.
Todo se desordena a través de ellos,
todo encuentra su cifra escamoteada;
pero ellos ni siquiera saben
que mientras ruedan en su amarga arena
hay una pausa en la obra de la nada,
el tigre es un jardín que juega.
Amanece en los carros de basura,
empiezan a salir los ciegos,
el ministerio abre sus puertas.
Los amantes rendidos se miran y se tocan
una vez más antes de oler el día.
Ya están vestidos, ya se van por la calle.
Y es sólo entonces cuando están muertos,
cuando están vestidos,
que la ciudad los recupera hipócrita
y les impone los deberes cotidianos.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Malagueño
Existirá sombra em teu caminho?
Penumbra.
Alguma?
Não há.
Don Juan, ah Don Juan...
Os teus encantos
susurros cantos
são meus segredos.
Eu quando menina,
ainda.
Eu pensava em "Don Juan"...
A grande fábula!
Mas eu não pretendia
Que um Don Juan
pousasse tão de repente
em minha vida.
Calor vindo do sol.
Que chega em noite escura
Oh mito espanhol!
Que cobre de vinho as donzelas
e baila e baila e baila
a noite a dança a valsa.
Don Juan! Quais caminhos percorrestes?
Santiago, Andaluza, Alicante.
Quantos perigos Don Juan!
Quantos milagres!
Mais um brinde à Don Juan,
Mais uma valsa.
Uma mais noite!
Taças, sapatos, roupas largadas
Aromas, odores, sabores
E tudo aquilo que inspira e transborda
amores.
Penumbra.
Alguma?
Não há.
Don Juan, ah Don Juan...
Os teus encantos
susurros cantos
são meus segredos.
Eu quando menina,
ainda.
Eu pensava em "Don Juan"...
A grande fábula!
Mas eu não pretendia
Que um Don Juan
pousasse tão de repente
em minha vida.
Calor vindo do sol.
Que chega em noite escura
Oh mito espanhol!
Que cobre de vinho as donzelas
e baila e baila e baila
a noite a dança a valsa.
Don Juan! Quais caminhos percorrestes?
Santiago, Andaluza, Alicante.
Quantos perigos Don Juan!
Quantos milagres!
Mais um brinde à Don Juan,
Mais uma valsa.
Uma mais noite!
Taças, sapatos, roupas largadas
Aromas, odores, sabores
E tudo aquilo que inspira e transborda
amores.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
lamento sertanejo
Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não faloEu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não faloEu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.
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