quinta-feira, 18 de julho de 2013

Encontro com Álvaro de Campos

Não cala
Não cala
Não cala.
De dentro a fora
de fora por dentro
bem dentro
lá dentro
não cala
não passa
perpassa
transita
alisa
paralisa
não cala.

Engole
não cala
boceja
não cala
disfarça
não cala
consome por dentro
de dentro a fora
de fora por dentro
enforca
degola
esquenta e
esgota
não cala.

Sussurro no fundo
no fundo do peito
anseio
anseio
anseio
receio.
Se parto
não cala
se fico
não cala
se finjo
não cala.

vozes perdidas
querendo existir
todas as luzes
acesas por dentro
lá dentro
bem dentro.

Não cala
não passa
apavora
e ameaça.
Há tormenta.

(...)

Oh! Absurdos!
Vocês são o mundo
que escapa a todo momento.
Vou arrumar às malas!
Acender o cigarro!
Entrar no navio!

(entrei)

(Com uma mão segura o leme, com a outra aponta além: Álvaro de Campos)

"_Rumo ao Oriente!
Um oriente
ao oriente
do oriente.
Lá! Lá! Lá!
E não aqui.
Mas não será tão lá
o aqui?
Lá, terei eu nostalgia de existir?
Somos convalescentes do momento e
moramos no rés-do-chão do pensamento"

Dei um soco no Álvaro de Campos!
Tomei o leme!
"_Partir!"
Fumando ópio
ele cantava ao meu ouvido
"_Vai, vai, vai!, mas saiba:
não cala
não cala
não cala."




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