terça-feira, 27 de outubro de 2009

Oh Mestre Bashô



Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração
detem-se e chora na noite...


Outono
Empoleirado num ramo seco
um corvo


Viagem de anciões,
Cabelos brancos, bastões-
visita aos túmulos.


E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?


Ameixeira em flor
o rio leva de verdade
suas flores refletidas?


Um comentário:

Ricardo Vieira disse...

"Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza de reconstruí-lo livre. (...) Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá infiltrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo? (...) A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! (...)" (Vinícius de Moraes, "A Transfiguração pela Poesia.")