quarta-feira, 28 de maio de 2008

A Quadrilha das Lagostas


Disse a branquinha ao caracol: "Vê se apressa esse passo!
Pisam na minha cauda, há um delfim em nosso encalço."
Lagostas e tartarugas anciosas, avançam!
Esperam entre os seixos você vai entrar na dança?
Não vai, vai, não vai, você vai entrar na dança?
Vai, não vai, vai, você não vai entrar na dança?

"É tão delicioso, você nem pode imaginar,
Quando nos atiram, com as lagostas, para o mar!"
Mas, disse o caracol, "Longe demais!", sem confiança...
Ficava muito grato, mas não ia entrar na dança.
Não, não podia, não, não ia entrar na dança.
Não, não ia, não, não podia entrar na dança.

"Longe? Mas e daí?", respondeu a amiga escamada.
"Você bem sabe que existem praias do outro lado.
Se longe da Inglaterra, muito mais perto da França...
Meu caro, não tenha medo, trate de entrar na dança.
Não vai, vai, não vai, você vai entrar na dança?
Vai, não vai, vai, você não vai entrar na dança?"

De "Alice no País das Maravilhas"

Esquecimento Necessário















Sabia

não sei mais
sou feliz.


Para os leitores que gostam das linhas fartas.

Eu sou do contra.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ah... outono...

OUTONO

Como é agradável,
numa tarde de outono
notar que as folhas secas
caem com o sopro do vento.

A perfeita metáfora da vida
é como árvore no outono.
Brotos verdes.
Folhas secas.

Crescer sem pensar que se cresce
Cair sem saber que caiu
Morrer sem notar que existiu.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Paisagem pelo telefone

Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho mínima,

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estáis mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

(Cabral de Melo Neto)

sábado, 3 de maio de 2008

Mas o que é que é mesmo a metafísica?!


Não leitor, não responderei. Chegues tu mesmo a uma conclusão.

Mas como hoje é sábado, quem é que está preocupado em pensar? Sábado já é o dia do banho, só nos faltava essa., pensar também!? Calma leitor... Quem é que falou em pensar? Estais por demais precipitado. E Lá se chega a alguma resposta pensando? Pensar confunde, é preciso ver.

Vejamos este soneto intitulado "Diálogo entre Babieca y Rocinante"


B. ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues ¿ qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.
B. Andá señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
¿ Quereislo ver? Miraldo enamorado.
B. ¿ Es necedad amar?
R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis.
R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero.
R. No es bastante.
¿ Como me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?

(Miguel de Cervantes)

Saudoso Machado...


100 anos sem o "inadjetivável" (e é esse o adjetivo que lhe cabe) escritor. Então, é este o momento oportuno, para uma breve, porém sincera homenagem a Machado de Assis. Cá com os nossos botões, o que escreveria Machado se ainda estivesse vivo? Nada! Nasceu, escreveu e morreu na hora certa. Perdoa-nos Machado, mas vamos comemorar com vossos próprios escritos, os 100 anos de vossa morte.


"Filosofia dos Epitáfios"

"Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos."

(Memórias Póstumas de Brás Cubas)


"A um Crítico"

"Meu caro crítico,
Algumas páginas atrás, dizendo eu que tinha cinqüenta anos, acrescentei: "já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias." Talvez aches esta frase incompreensível, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua atenção para a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! É preciso explicar tudo."


(Memórias Póstumas de Brás Cubas)
" O Assombro de Itaguaí"

"E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.

_ Todos?

_ Todos."


( Fragmento do capítulo XI do conto " O Alienista")

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Dentro do livro de Tolkien


Menino de engenho

A cana cortada é uma foice.
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice
que a corta em foice, um dar-se mútuo.

Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.

A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado(então)
é vírus ou vacina.
(Cabral de Melo Neto)
Taí, gosto muito dessa poesia.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O "por quê" do nome

Por que veredas !? Por que essa palavra que ninguém quase nunca usa!? Qual o seu significado? Qual a sua importância? Não há importância, o que há é simplesmente vereda, melhor, veredas; caminho estreito, porém fértil, caminho que leva, caminho que é levado, caminho ramificado, caminho sem fim, caminho de pensamento, caminho de labirinto; encontros, desencontros, caminhos...Veredas. Por que veredas? Porque veredas.