sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Torso Arcaico de Apolo

Ontem, tive na faculdade uma das melhores aulas da minha vida, foi uma aula do professor Santoro, Fernando Santoro. Ele estava falando sobre lírica, e um dos exemplos utilizados foi esta poesia, que segue logo abaixo, do Rilke, é uma pena que eu não seja capaz de transcrever com o mesmo pathos a interpretação feita por ele, fica no entanto o poema.
Deleitem-se!

Wir kannten nicht sein unerhötes Haupt,
darin die Augenäupgel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen nur zurückgeschraubt

sich hält und glänzt. Sonst könte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden Könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmert nicht so wie Raubtierfelle

und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.



Rainer Maria Rilke / Tradução de Manuel Bandeira


Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.

3 comentários:

Ricardo Vieira disse...

Vou fazer um comentário pra provocar: o que este poema diz não é senão que o Belo é a Idéia. O Torso não é um pedaço de lixo (i-mundo) porque no torso aparece o corpo; no corpo aparece o homem; e no homem aparece a vida. É na integração com o todo que ele se alça e realça o que lhe é ausente. Tudo que é belo só é verdadeiramente belo quando é belo inteiro - quando participa da beleza da própria vida.

NILTON disse...

Ontem também tive essa aula com o professor Fernando Santoro, e realmente é uma viagem ao movimento de uma estátua, um torso é o movimento que um escultor consegue como artista dar movimento a uma parte da estátua e não fica só nisso não, a coisa tem pano pra manga...

Unknown disse...

É a estátua que nos mira, que nos olha. E nos grita: precisas mudar de vida, FORÇA é mudares de vida.