terça-feira, 24 de novembro de 2009

Grandes

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.

Fim.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Humano

Errante!
Sou! Sou! Sou!
Aos avessos.
Aos tropeços.
Porque quero
Porque posso.
Pois sou homem.
Sou o todo mundo.
águas de um rio que passa.
Sou deus,
sou deus ao avesso,
pegadas as quais areias escondem.
Eu passei.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

(De "O Encontro")

Já não havia mais folhas naquela árvore que beirava a linha do trem. Era outono. O sol já não fazia presença, anoitecia sem tarde. “É outono” o jovem pensava. Sentado em frente ao piano, podia observar a rua através da janela, o vidro estava embaçado e a árvore na beira da linha do trem parecia tanto mais sombria, solitária. “Sozinho sou eu”. Agora, com as duas mãos sobre o piano, começou a tocar. Será que pensava? Executava... Do lado de fora anoitecia. O frio. Vento levando embora. Já não podia. Angústias. Levantou-se, precisava beber, precisava fumar, fumou. Fumaças que invadiam e anuviavam a sala abriam um caminhozinho para seu pensar. Larissa. Larissa era branca, magra, linda, bailarina. Larissa fazia amor sem pudor. Quem não faria? Nosso jovem inclina-se numa poltrona, apaga o cigarro, e aos poucos, vai adormecendo. Sonhos... O inexplicando-se. Na verdade e no fundo, o homem é apenas a sombra de um sonho. O Homem sonha! Sonha que sonha. Quando acorda sonha lembrança de sonho. Será? Seria? Real.
Barulho rangendo em meio a noite, o pianista desperta, teria dormido? Algo toca os telhados, mas não há incômodo neste barulho, ao contrário... Tal barulho embalava. Haveria alguém lá fora? O rapaz não dormia. “Quem é que toca os telhados a essa hora?” As crianças dormem. Alguma mulher repousa a face cansada no travesseiro, não dorme, devaneia. Algum homem se apega junto ao fogo, pensando em que? em quem? Em nada talvez.
"O que é que toca os telhados a essa hora?" Se pergunta aflito, aflição que se espalha pelo ar, aquela sala não o acolhe, não mais. É intenso demais o vigor que lhe palpita no peito. Intensidade meramente fugaz.Quem afaga os telhados são as telhas que se tocam, pois o vento sopra forte e choverá a qualquer hora. O jovem não consegue permanecer deitado. Como é possível dormir com um turbilhão dentro do peito? Quando o sopro que anima a alma se transforma em tufão o próprio corpo já não é mais um abrigo seguro. É preciso se precipitar ao telhado e deparar-se com o ignoto, esse desconhecido que paira no horizonte, toma as feições do vento forte que lhe bate no rosto e balança as telhas das casas e derruba as folhas das árvores. O homem mede forças com aquilo que desconhece e normalmente acaba arrasado, destruído, mas por um único motivo apenas; há nele a memória de sentir-se devastado.
Uma gota toca-lhe a nuca, outra despetala a flor, finda a ventania com um suspiro do rapaz.
Agora chove. Chove. Apenas e simplesmente chove.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Meu sonho

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?.
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!.

Álvares de Azevedo

domingo, 1 de novembro de 2009

Sem paz, sem amor, sem teto
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.